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Palavra do pároco                                                                            Outubro

UM SANTO ADMIRÀVEL, UM EXEMPLO DE VIDA

 
Todo dia se morre um pouco"
Eis que chega mais um Novembro... que se inicia sob as bênçãos de Todos os Santos. Nossos parentes e amigos que já partiram para a eternidade feliz são homenageados logo a seguir, com muita saudade. O crepúsculo do ano litúrgico prossegue e o mês termina com a entrada no Advento: a busca da santidade!

Isso tudo me lembra CONVERSÃO e me faz pensar na nossa devoção aos santos e santas de Deus, a quem tantas vezes nos apegamos nas horas difíceis. Quero repartir com meus queridos paroquianos um texto que me chegou às mãos por meio de uma pessoa amiga e que fala da conversão de um dos mais destacados santos da nossa Igreja – trata-se de Francisco, o santo de Assis, cuja festa foi celebrada no mês passado, em 4 de outubro.

A CONVERSÃO DE FRANCISCO

A juventude de Francisco era pura agitação. Em toda aquela inquietude não lhe ocorria voltar-se inteiramente para Deus. Por mais que tentasse libertar-se e rebelar-se, achava-se sempre voltado para o pai, Pietro di Bernardone.

E Pietro di Bernardone compadecia-se do filho. Franzia a testa, preocupado com seu futuro e seguia-o curioso por saber onde ele haveria de encontrar a passagem da juventude à maturidade. Esperava que Francisco se tornasse um homem, construindo a própria vida segundo a arquitetura usual, em meio à burguesia.

Francisco protelava a doença da juventude sem dar sinais de convalescença. Não alimentava projetos futuros. À noite, velava ou sonhava. De manhã, à luz clara do dia, saía com suas esquisitices. Foi numa daquelas manhãs alucinantes que, como se caminhasse sobre a orla fresca do dia, com súbito desvio, "saiu do século"; saiu do tempo e do espaço.

Foi a cavalo em direção ao campo. A pouca distância da cidade, havia um leprosário, cujo mau cheiro, em dias de vento, chegava a contaminar as ruas de Assis. Francisco estremecia ao sentir aquele cheiro insuportável. Sua fantasia mostrava-lhe os doentes com insistência dolorosa e amorosa.
A lepra, trazida ao Ocidente pelos Cruzados, era o "mal terrível" dos hebreus, a pavorosa chancela de Deus. Dizia-se que o leproso era diretamente atingido por Deus. Essa misteriosa doença fazia as carnes apodrecerem lentamente. Era a macabra tradução da sentença: "Todo dia se morre um pouco". E o leproso era um vivo que, dia a dia, presenciava a própria morte.

O dia em que o desgraçado vestia a terrível túnica da lepra, o sacerdote celebrava por ele a missa dos defuntos. Em seguida, notificava ao contagiado as proibições legais: proibido entrar na igreja, nos mercados, nos moinhos, nos campos, nas vinhas; proibido lavar as mãos ou beber nas fontes; proibido entrar em tavernas, em becos estreitos, em casas comerciais, proibido parar gente nas ruas. Era proibida a companhia de qualquer pessoa que não fosse desgraçada como ele.

Os leprosários, mais que hospitais, conventos ou eremitérios, eram túmulos. E esses túmulos só se abriam no dia da Páscoa. Jesus ressuscitara e os leprosos ressuscitavam com ele. Como espectros medonhos, os leprosos espalhavam-se pelos campos, vestindo suas túnicas vermelhas e fazendo soar uma matraca, para que os sãos fossem advertidos de sua presença no caminho. Contemplavam o mundo que já não lhes pertencia, com olhos vivíssimos nas cavidades mortas, sem lágrimas. Recolhiam-se ao crepúsculo.

Francisco, naquela manhã, saiu a cavalo, como Paulo indo a Damasco. Abandonou as rédeas sobre o pescoço do animal, deixando-se conduzir por ele. O cavalo tomou o rumo do leprosário. É possível que a luminosidade da manhã ofuscasse o jovem cavaleiro e seu espírito estivesse ainda meio adormecido pela fadiga noturna. De repente, avistou à beira da estrada o manto vermelho de um daqueles leprosos que vagavam pelo campo com a permissão de seus superiores.

Ao primeiro impulso, é possível que tenha freado o cavalo à borda de um precipício. Aquele abismo de miséria causava-lhe repugnância física, mas, ao mesmo tempo, atraía-o de maneira estranha. O leproso também se retraiu amedrontado. Ele não tinha o direito de caminhar na direção do vento. Entre ele e Francisco ficou um espaço vazio e um tempo suspenso. Depois, Francisco apeou do cavalo, prostrou-se aos pés do leproso, tomou-lhe a mão chagada e beijou-a longamente.
Sem saber como, viu-se de novo cavalgando. Trotava sobre a estrada branca e cantava em provençal. A certa altura, voltou-se para rever o leproso. Desaparecera. Ao redor, o campo aberto e vasto. Não havia sinal dele.

Foi então que ouviu dentro de si uma espécie de grito de libertação. Uma luz não feita de sol, uma paz não feita de silêncio lhe invadiram a alma. E enquanto uma alegria física lhe tomava conta do espírito, o corpo se tornava leve, transparente, pronto. Uma sensação de perfeição, de coisa acabada, feita para sempre, aliviava-o e inebriava-o. Sentia-se livre e desligado do mundo como se, de repente e de maneira irrevogável, tivesse pronunciado o mais grave dos votos. Ousara o que ninguém ousaria e cumprira o irremediável. "Saíra do século" aceitando a morte, com um beijo, e entregando-se sem terror à vontade de Deus,do livro "São Francisco de Assis", de Piero Bargellini (Editora Universidade de Brasília)

Neste mês, ao celebrarmos todos os santos e os finados, que pela fé na infinita misericórdia de Deus, eles também estarão hoje no meio dos santos, junto com Francisco, vamos refletir sobre a nossa vida, a nossa conversão para Deus, a felicidade interior que todos experimentamos quando permitimos que os planos de Deus se realizem em nós.

E só me resta louvar. Só me resta dizer, com o coração agradecido... louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor e suportam enfermidades e atribulações. Que pela intercessão de São Francisco e de todos os santos e santas, Deus abençoe a todos vocês!

Pe. Abdon Dias Guimarães
- pároco -

 

 

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