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CONVERSÃO DE FRANCISCO
A juventude de Francisco era pura agitação.
Em toda aquela inquietude não lhe ocorria voltar-se
inteiramente para Deus. Por mais que tentasse libertar-se
e rebelar-se, achava-se sempre voltado para o pai, Pietro
di Bernardone.
E Pietro di Bernardone compadecia-se do filho. Franzia
a testa, preocupado com seu futuro e seguia-o curioso
por saber onde ele haveria de encontrar a passagem da
juventude à maturidade. Esperava que Francisco
se tornasse um homem, construindo a própria vida
segundo a arquitetura usual, em meio à burguesia.
Francisco protelava a doença da juventude sem
dar sinais de convalescença. Não alimentava
projetos futuros. À noite, velava ou sonhava.
De manhã, à luz clara do dia, saía
com suas esquisitices. Foi numa daquelas manhãs
alucinantes que, como se caminhasse sobre a orla fresca
do dia, com súbito desvio, "saiu do século";
saiu do tempo e do espaço.
Foi a cavalo em direção ao campo. A pouca
distância da cidade, havia um leprosário,
cujo mau cheiro, em dias de vento, chegava a contaminar
as ruas de Assis. Francisco estremecia ao sentir aquele
cheiro insuportável. Sua fantasia mostrava-lhe
os doentes com insistência dolorosa e amorosa.
A lepra, trazida ao Ocidente pelos Cruzados, era o "mal
terrível" dos hebreus, a pavorosa chancela
de Deus. Dizia-se que o leproso era diretamente atingido
por Deus. Essa misteriosa doença fazia as carnes
apodrecerem lentamente. Era a macabra tradução
da sentença: "Todo dia se morre um pouco".
E o leproso era um vivo que, dia a dia, presenciava
a própria morte.
O dia em que o desgraçado vestia a terrível
túnica da lepra, o sacerdote celebrava por ele
a missa dos defuntos. Em seguida, notificava ao contagiado
as proibições legais: proibido entrar
na igreja, nos mercados, nos moinhos, nos campos, nas
vinhas; proibido lavar as mãos ou beber nas fontes;
proibido entrar em tavernas, em becos estreitos, em
casas comerciais, proibido parar gente nas ruas. Era
proibida a companhia de qualquer pessoa que não
fosse desgraçada como ele.
Os leprosários, mais que hospitais, conventos
ou eremitérios, eram túmulos. E esses
túmulos só se abriam no dia da Páscoa.
Jesus ressuscitara e os leprosos ressuscitavam com ele.
Como espectros medonhos, os leprosos espalhavam-se pelos
campos, vestindo suas túnicas vermelhas e fazendo
soar uma matraca, para que os sãos fossem advertidos
de sua presença no caminho. Contemplavam o mundo
que já não lhes pertencia, com olhos vivíssimos
nas cavidades mortas, sem lágrimas. Recolhiam-se
ao crepúsculo.
Francisco, naquela manhã, saiu a cavalo, como
Paulo indo a Damasco. Abandonou as rédeas sobre
o pescoço do animal, deixando-se conduzir por
ele. O cavalo tomou o rumo do leprosário. É
possível que a luminosidade da manhã ofuscasse
o jovem cavaleiro e seu espírito estivesse ainda
meio adormecido pela fadiga noturna. De repente, avistou
à beira da estrada o manto vermelho de um daqueles
leprosos que vagavam pelo campo com a permissão
de seus superiores.
Ao primeiro impulso, é possível que tenha
freado o cavalo à borda de um precipício.
Aquele abismo de miséria causava-lhe repugnância
física, mas, ao mesmo tempo, atraía-o
de maneira estranha. O leproso também se retraiu
amedrontado. Ele não tinha o direito de caminhar
na direção do vento. Entre ele e Francisco
ficou um espaço vazio e um tempo suspenso. Depois,
Francisco apeou do cavalo, prostrou-se aos pés
do leproso, tomou-lhe a mão chagada e beijou-a
longamente.
Sem saber como, viu-se de novo cavalgando. Trotava sobre
a estrada branca e cantava em provençal. A certa
altura, voltou-se para rever o leproso. Desaparecera.
Ao redor, o campo aberto e vasto. Não havia sinal
dele.
Foi então que ouviu dentro de si uma espécie
de grito de libertação. Uma luz não
feita de sol, uma paz não feita de silêncio
lhe invadiram a alma. E enquanto uma alegria física
lhe tomava conta do espírito, o corpo se tornava
leve, transparente, pronto. Uma sensação
de perfeição, de coisa acabada, feita
para sempre, aliviava-o e inebriava-o. Sentia-se livre
e desligado do mundo como se, de repente e de maneira
irrevogável, tivesse pronunciado o mais grave
dos votos. Ousara o que ninguém ousaria e cumprira
o irremediável. "Saíra do século"
aceitando a morte, com um beijo, e entregando-se sem
terror à vontade de Deus,do livro "São
Francisco de Assis", de Piero Bargellini (Editora
Universidade de Brasília)
Neste mês, ao celebrarmos todos os santos e
os finados, que pela fé na infinita misericórdia
de Deus, eles também estarão hoje no meio
dos santos, junto com Francisco, vamos refletir sobre
a nossa vida, a nossa conversão para Deus, a
felicidade interior que todos experimentamos quando
permitimos que os planos de Deus se realizem em nós.
E só me resta louvar. Só me resta dizer,
com o coração agradecido... louvado sejas,
meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor e suportam
enfermidades e atribulações. Que pela
intercessão de São Francisco e de todos
os santos e santas, Deus abençoe a todos vocês!
Pe. Abdon Dias Guimarães
- pároco -
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